3 de out. de 2010

Injustiça na cidade: De Isaías a Boca do Inferno


Que falta nesta cidade?... Verdade.
Que mais por sua desonra?... Honra.
Falta mais que se lhe ponha?... Vergonha.

O demo a viver se exponha,
Por mais que a fama a exalta,
Numa cidade onde falta
Verdade, honra, vergonha.

Pois as suas mãos estão manchadas de sangue,
e os seus dedos, de culpa.
Os seus lábios falam mentiras,
e a sua língua murmura palavras ímpias.

Apóiam-se em argumentos vazios e falam mentiras;
concebem maldade e geram iniqüidade. 
Não se acha a verdade em parte alguma,
e quem evita o mal é perseguido.

E que justiça a resguarda?... Bastarda.
É grátis distribuída?... Vendida.
Que tem, que a todos assusta?... Injusta.

Valha-nos Deus, o que custa
O que o rei nos dá de graça.
Que anda a Justiça na praça
Bastarda, vendida, injusta.

A verdade anda tropeçando pelas praças
e a honestidade não consegue entrar.
Por isso a justiça está longe de nós,
e a retidão não nos alcança.

Procuramos, mas tudo são trevas;
buscamos claridade,
mas andamos em sombras densas.

A Câmara não acode?... Não pode.
Pois não tem todo o poder?... Não quer.
É que o Governo a convence?... Não vence.

Quem haverá que tal pense,
Que uma câmara tão nobre,
Por ver-se mísera e pobre,
Não pode, não quer, não vence.

Ninguém pleiteia sua causa com justiça,
ninguém faz defesa com integridade.

Olhou o Senhor e indignou-se com a falta de justiça.
Ele viu que não havia ninguém,
admirou-se porque ninguém intercedeu;
então o seu braço lhe trouxe livramento
e a sua justiça deu-lhe apoio.



Fonte: Trechos de Isaías 59 e Epigrama (de Gregório de Mattos, conhecido como 'Boca do Inferno').

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